Conheça Sugata Mitra, o indiano que está fazendo o mundo repensar a Educação

Mitra é pesquisador e professor de Tecnologia Educacional da Newcastle University, na Inglaterra, e professor visitante do Massachusetts Institute of Technology, o prestigiado MIT, no Estados Unidos. Sua principal pesquisa foi o mote da palestra, intitulada “O buraco na parede… e além”. O título se refere à experiência de colocar um computador preso dentro de uma parede, com acesso à internet, em um povoado pobre da Índia, sua terra natal.

“Entre 1999 e 2001, na Índia, havia muitas crianças sem acesso a computadores, e quase nenhum professor para ensinar informática”, disse Mitra. Ele resolveu testar a reação das crianças ao aparelho sem a ajuda de professores, simplesmente colocando um no meio de uma favela indiana. Não havia ninguém para ajudar no uso, mas a máquina tinha monitoramento remoto. Estava equipada com teclado, mouse e o mecanismo de busca na web popular na época, o Altavista.

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O resultado dos dados de navegação foi surpreendente. “Crianças que não sabiam inglês estavam surfando na web, ensinando umas às outras”, disse o professor. Ao repetir a mesma experiência em uma comunidade ainda mais isolada, o resultado de dois meses foi uma demanda técnica das crianças. “Eles disseram que precisavam de um processador mais rápido e um mouse melhor”, afirma Sugata Mitra.

Com os resultados impressionantes nas mãos, a equipe de Mitra conseguiu verba do Banco Mundial para prosseguir com a pesquisa, que foi replicada em outras cidades da Índia e da África do Sul. Além de dados, os computadores da nova fase também enviavam fotografias de quem estava usando a máquina e imagens da tela navegada, de dois em dois minutos. Para garantir que apenas crianças navegassem, o teclado e o mouse ficavam em uma caixa de madeira, com um buraco para caber apenas mãos bem pequeninas.

Até 2004, segundo Mitra, 1 milhão de crianças aprenderam sozinhas a usar o computador, em grupo, ensinando umas às outras. E aprenderam o básico de inglês, para poder se comunicar com o mundo. “Em apenas 9 meses, as crianças chegavam no nível de secretárias que trabalham com o computador”, disse.

A partir de 2004, a pesquisa seguiu rumos ambiciosos. A demanda por pessoas que falam língua inglesa nos empregos indianos – principalmente em call centers – era, e é, grande na Índia. A ideia de Mitra foi introduzir no computador de uma turma específica um programa que transforma em texto as palavras ditas em inglês. “No começo, elas falavam e o computador não entendia. Disse que elas teriam que fazer com que o computador entendesse”, afirmou. “Voltei 2 meses depois e cumprimentei uma criança: ‘How are you?’ (‘Como está você?’). Ela respondeu ‘Fantastic’ (‘Fantástico’)”, disse. Segundo Mitra, os estudantes tinham baixado uma versão online do Dicionário Oxford. Assim, buscavam a palavra, ouviam a pronúncia e repetiam para o programa instalado pelo pesquisador, que reproduzia a mesma palavra na tela. Era só conferir. “Um professor faria isso. Mas o professor (ele mesmo) foi embora, e só voltou dois meses depois”.

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Outra evolução da pesquisa foi um teste arriscado, e o resultado, segundo Mitra, era analisar o fracasso. O ‘problema’ é que não houve fracasso. A proposta: Será que crianças na pré-adolescência entenderiam um texto que explica a biotecnologia na reprodução do DNA? No primeiro teste sobre o assunto, todos tiraram zero, como era de se esperar. Dois meses depois, a mesma coisa. O interessante é que ninguém, segundo Mitra, deixava de se interessar em tentar. Mais dois meses se passaram e o nível de acerto em um novo teste foi de 30%. Sugata Mitra queria 50%, o mesmo nível obtido por crianças das melhores escolas particulares de Nova Deli, capital da Índia.

A estratégia para alcançar esse objetivo foi simples: Escolher uma aluna simplesmente para incentivar as crianças, dizendo coisas como “Fantástico! Na minha idade eu faria muito menos”, mesmo que o resultado do ‘aluno’ em questão não fosse satisfatório. No terceiro teste, as crianças acertaram metade das questões, afirma Mitra.

Atualmente, as pesquisas com crianças e computadores são aplicadas por Mitra em vários países, inclusive no Brasil. Na manhã antes da palestra, no dia 7 de fevereiro, o pesquisador visitou a Casa do Zezinho, um projeto social de educação para crianças de favelas da Zona Sul de São Paulo. A nova configuração do experimento é apresentar grandes questões às crianças e esperar pelo resultado das buscas em grupo.

A questão apresentada às crianças de São Paulo foi “Por que nós sonhamos?”. Com apenas um dia de pesquisas, a resposta foi simples, mas surpreendente: “Sonhos são causados pela mente, e Sigmund Freud desvendou seus significados. Mas estudos recentes contestam as conclusões dele”, disse Mitra, reproduzindo a resposta dos alunos.

Na polêmica teoria de Sugata Mitra, “o futuro da educação está na auto-educação”, e o papel do professor do futuro seria o de apresentar questões que instigam a curiosidade das crianças, principalmente crianças com menos de 13 anos, mais abertas ao conhecimento e menos ligadas a questões como classes sociais. “A reação de crianças abaixo dos treze anos é exatamente igual em qualquer lugar do mundo”, afirma o pesquisador. “O emprego dos professores não seria ameaçado. Seria diferente”, afirmou.

Como exemplo do sucesso de formular questões interessantes às crianças, ele usou uma pergunta feita para um grupo da Itália: “Como um iPad (tablet da Apple) sabe onde ele está?”. O resultado da pesquisa dos alunos foi simples: três satélites localizam o iPad, e assim é possível identificar seu lugar no espaço. Segundo Mitra, ensinar as bases da trigonometria, que explicam de outra forma a questão do iPad, não instiga a curiosidade infantil. “Estudar os ângulos de um triângulo dá sono”, diz.

Como um modelo de ensino tão polêmico teria lugar nas escolas? Segundo Mitra, a mudança precisa vir de baixo para cima. “Basta procurar as empresas de tecnologia e investir na banda larga nas escolas, e tudo vai acontecer naturalmente”, diz Mitra, que já procurou o governo da Inglaterra para testar seu modelo, sempre sem sucesso.

Fonte: Época

Veja a palestra do Prof. Sugata Mitra no Ted: Construa uma Escola na Nuvem

Conheça o documentário “O buraco no muro”

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3 comentários Adicione o seu

  1. Francismar Pereira Lopes disse:

    Espetacular!! E assim começa a revolução nas escolas!! Vamos à ela!! 😉

    Curtido por 1 pessoa

  2. Olá Francismar,

    Que contar com você no desafio da Educação neste novo tempo!

    Abraços.

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  3. Ana Bolena disse:

    Extraordinário! Que continue transformando, revolucionando o cotidiano de muitos jovens e crianças pelo mundo inteiro!

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