“Jogar Videogame me levou à faculdade de História”, relata jovem considerado abaixo da média no colégio

Quando minha classe de história na 6ª série finalmente chegou à batalha de Hasting (marco da conquista da Inglaterra pelos Normandos) eu mal conseguia conter a minha excitação.

Era um estudante abaixo da média. Ficava dispersivo durante as aulas de matemática; nas de inglês lia livros que escondia embaixo da carteira. Minhas notas qualquer nota minavam lentamente minha autoconfiança —  e minha capacidade de acreditar que um dia teria sucesso na escola.

Mas em história, especialmente história medieval, eu era um aluno diferente. Jogos de computador de Estratégia em Tempo Real (RTS, na sigla em inglês) me ensinaram tudo o que eu precisava saber.

Numa manhã, minha professora de história escreveu o número 1066 na lousa. “Alguém pode me dizer o que aconteceu naquele ano?”, perguntou. Meus colegas de classe pareciam ter entrado em um estado de semi-estupor. Mas para mim aqueles quatro dígitos provocaram uma cascata de imagens e ideias. Quando ergui a mão, a professora arqueou as sobrancelhas.

“Sim?”, ela disse, apontando para mim, franzindo os olhos, desconfiada. Até aquele dia, eu raramente tinha falado na classe. Abri a boca e, para a surpresa de todo mundo, a resposta simplesmente saiu. Datas, nomes, lugares, táticas de batalha. Eu poderia ter dado a aula naquele dia.

As sobrancelhas da professora ficaram ainda mais arqueadas. “Onde você aprendeu isso?”, perguntou. “Em um videogame”, respondi. Ela deu um sorriso debochado e se virou de volta para a lousa.

Por alguns minutos pareceu que as horas incontáveis gastas no laptop do meu pai jogando Empire Earth fossem realmente se conectar com alguma coisa na minha apagada educação formal. O videogame tinha me ensinado não apenas as datas, mas os principais atores: os normandos (liderados pelo duque Guilherme II), os saxões (comandados por Haroldo II) e os vikings (liderados por Haroldo Hardrada).

É verdade que as limitações técnicas do jogo faziam com que uma batalha épica —  que envolveu mais de 20.000 homens — fosse representada por um grupo de 30 soldados vermelhos pixializados contra outros 30 soldados amarelos igualmente borrados. Mas o Empire Earth também incorporava uma profusão de detalhes ricos, da vida real —  como a impressionante aula de liderança dada por Guilherme II quando o duque subiu uma colina durante a batalha para mostrar a suas tropas que não tinha morrido e a incrível bravura mostrada pelos soldados na travessia do Canal da Mancha.

Graças ao jogo eu entendi que os normandos, os saxões e os vikings tinham culturas diferentes, com maneiras únicas e idiossincráticas de se vestir e de falar. Os normandos, por exemplo, falavam com arrogante sotaque francês, enquanto o dos vikings era vagamente norueguês. O Empire Earth me ensinou o que era um trebuchet (tipo de catapulta). Mais do que isso, entendi que as datas e nomes que a professora nos pedia para memorizar nas aulas de história não eram apenas dados arbitrários, mas detalhes de uma grande e épica narrativa.

Eu ficava chocado com o fato de meus colegas não se entusiasmarem por aquele material tanto quanto eu. Também me desapontei com a professora, por não endossar o videogame. Isso me fez suspeitar secretamente que ela estava apenas passando conteúdo para nos testar, sem entender de fato como história era realmente legal.

Minha educação formal se arrastou ao longo do ensino médio. Em casa, no entanto, eu estava rapidamente me transformando em um aficionado em história. Os games alimentaram meu interesse por ficção histórica e depois pela história em si, o que por sua vez me fez querer ler mais e jogar mais.

Quando amadureci e minha compreensão da história ficou mais complexa e nuançada o mesmo ocorreu com os videogames. Na época dos meus 12 anos, a Batalha de Hastings tinha os borrões pixializados. Aos 16, eu jogava com o Medieval Total War e sua renderização muito mais sofisticada. Quando a nova edição do Medieval saiu, a batalha estava renderizada em toda a sua glória, com os exércitos saxão e normando formados por milhares de soldados. A incrível profundidade de detalhes casava com perfeição com o conhecimento que eu já tinha adquirido: já tinha lido o bastante para apreciar o fato de que os soldados de cada lado usavam armaduras e armas reconstituídas minuciosamente.

Os jogos me fizeram aprender ainda mais sobre história. Jogando Medieval 2 Total War, eu me aprofundei nos detalhes da estratégia de batalha, como a maneira pela qual Guilherme II usou o arco longo, arma exclusiva do exército normando, para abrir caminho nas forças saxãs entrincheiradas. Como surgiu o arco longo? Como ele mudou a dinâmica do conflito? Por que ele era algo exclusivo da cultura normanda?

E aqui vem a parte realmente engraçada. Apesar da maneira como a professora revirou os olhos quando admiti que tinha aprendido sobre história em um videogame, a verdade é que historiadores jogam games também. Estou na faculdade agora – e fazendo um major (área de concentração dos estudos durante a graduação) em história. Da mesma forma que os estudantes mais entusiasmados de minha classe, sei como pesar o valor de evidências, pensar criticamente, recorrer às fontes primárias e debater as questões históricas relevantes de um período. Em conversas casuais professores e colegas revelam que games como Empire Earth, Age of Empires e Civilization oferecem uma estrutura narrativa que anima nossos estudos.

Para nós, os games tornaram a história menos remota e mais, digamos, épica. É um segredo que geralmente guardamos para nós mesmos. É fácil memorizar datas quando você já conhece as histórias.

Texto publicado em Bright. Fonte: Geekie

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